REVISTA LIBERDADES

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RESENHA
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O QUE FAZ O BRASIL, BRASIL?: ESSA E OUTRAS VERDADES DO JEITINHO BRASILEIRO
Alianna Caroline Sousa Cardoso

Este ensaio aborda as linhas escritas por Roberto DaMatta no livro O que faz o Brasil, Brasil?, trazendo as verdades que acompanham esse questionamento. Afinal, o que faz de você brasileiro? O que faz desse país Brasil? De fato, trata-se de uma questão de identidade, ou melhor, de uma construção de identidade permeada pela história desde o descobrimento do Brasil até os dias de hoje, com nossas particularidades e características ímpares.

Em uma pesquisa da identidade nacional, DaMatta revela o Brasil, os brasileiros e sua cultura através de suas festas populares, manifestações religiosas, literatura e arte, desfiles carnavalescos e paradas militares, leis e regras (quando respeitadas e quando desobedecidas), costumes e esportes.

De acordo com Roberto DaMatta, o "Brasil" maiúsculo do título significa muito mais que só o nome do país, por trás desse significado, encontra-se a expressão do país, da cultura, do local geográfico, da fronteira e do território reconhecidos internacionalmente, e também da casa, pedaço de chão calçado com o calor de nossos corpos, o lar, a memória e a consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, totalmente sagrada. É igualmente um tempo singular cujos eventos são exclusivamente seus, e que pode ser trazida de volta na boa recordação da saudade. Sociedade onde pessoas seguem certos valores e julgam as ações humanas dentro de um padrão somente seu.

Afinal, de fato, o que faz do Brasil uma nação vai muito além dos registros políticos e jurídicos que o inserem no patamar de país. O Brasil é mais que isso, é a construção da miscigenação cultural, é o mix de culturas e religiões, é a cor da pele misturada. É o jeito de nunca ter dinheiro para nada, mas estar sempre tomando uma cervejinha no domingo do futebol.

Por outro lado, DaMatta fala de um Brasil morto, utilizando o "brasil" com "b" minúsculo no título. Ele explica que o título mostra uma distinção entre o "brasil" com o "b" minúsculo, que na verdade representa uma alusão a um tipo de madeira de lei, a algo sem vida que não pode se reproduzir como sistema (feitorias, colônias) e o "Brasil" com o "b" maiúsculo, que designa um povo, uma nação, um conjunto de valores.

Para essa perspectiva, da dualidade da realidade dessa nação, o Brasil deve ser procurado nos rituais nobres dos palácios de justiça, dos fóruns, das câmaras, onde a letra clara da lei define suas instituições mais importantes, mas também deve ser visitado do jeitinho malandro que soma a lei com a pessoa na sua vontade escusa de ganhar.

O título é um questionamento com várias respostas, na verdade o que se quer é saber como é que os dois "Brasis" se ligam entre si e como os dois formam uma realidade única que existe concretamente naquilo que chamamos de "pátria".

Trata-se, sempre, da questão da identidade. De saber quem somos e como somos; de saber por que somos. A construção de uma identidade social, então, como a construção de uma sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões. Tudo isso nos leva a descobrir que existem dois modos básicos de construir a identidade brasileira: o de fazer o "brasil", Brasil.

O Brasil é o país da alegria e do povo que finge que não vê. É o país do rico que viaja para o exterior e do pobre que nunca saiu da favela. Nesse "brasil", utilizamos dados precisos, estatísticas demográficas e econômicas, dados e números da renda per capita e da inflação. Falamos também do sistema político e educacional do país, apenas para constatar que o Brasil não é aquele país que gostaríamos que fosse. Essa classificação permite construir uma identidade social moderna, de acordo com os critérios estabelecidos pelo Ocidente europeu a partir da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Aqui nos referimos ao Brasil que deixa a desejar.

Por outro lado, temos o Brasil que vale a pena, aqui o que importa não é mais a vergonha do regime ou a inflação galopante e "sem vergonha", mas a comida deliciosa, a música envolvente, a saudade que humaniza o tempo e a morte, e os amigos que permitem resistir a tudo.

Aqui temos uma contraposição paradoxal. Somos um país emergente, cheio de problemas sociais, econômicos e políticos, mas que exerce sua alegria carnavalesca no dia-a-dia, vencendo todas as possibilidades com o jeitinho "malandro" carioca, ou "metido" do sulista, "preguiçoso" do baiano, enfim, do jeitinho brasileiro.

Na mesma direção seguida por DaMatta, pensemos na cultura como característica predominante de um povo, e como ele mesmo indica "a palavra cultura exprime precisamente um estilo, um modo e um jeito, repito, de fazer coisas" [1]. Decerto, que essa coisa tem haver com costumes, condutas, hábitos, família, política, festas, etc.

Essa nação então é uma moeda de duas faces, onde temos uma jogada pequena (brasil), e uma jogada do autoritarismo político e econômico (Brasil).

Ainda na mesma direção que DaMatta, podemos discutir os conceitos de casa, lar, rua e trabalho. Na casa estão presentes as mais íntimas relações familiares. Não importa como a família seja: rica ou pobre. É dentro dela que está o verdadeiro "eu" de cada um. A nossa casa é o nosso lar. Quando vamos para o trabalho, nos distanciamos da "segurança" do nosso lar, e no fim da jornada fica a ansiedade de chegar nele e nele adentrar e tomar aquele banho e ficar a vontade, "pois essa é minha casa". Pensando por esse ponto de vista, a casa e rua são mais do que meros espaços geográficos, são modos de ler, explicar e falar do mundo, porque ali encontramos histórias e construções de vida.

Para DaMatta a idéia de residência é um fato social totalizante, na casa há tranqüilidade, calma, harmonia. Na rua há luta, batalha, perigo. No trabalho há concorrência, reclamação, chefe, batente. No entanto, essas três idéias se correlacionam, pois fazem parte da vida do indivíduo. Na rua se vê o povo. Na casa, o "amigo". No trabalho, o "colega".

Tudo isso nos conduz a discussões acerca da sociedade que encontramos na rua, onde existem os preconceitos e as regras que não podem ser quebradas. Onde ser "você mesmo" pode ser perigoso. Na rua é que estão as verdades sociais, os flagelos da sociedade. Na rua nos deparamos com o "racismo à brasileira" e o nosso famoso triângulo racial. Aqui falamos de um Brasil pequeno, com "b" minúsculo, que ainda não se viu como sistema altamente hierarquizado, onde a posição de negros, índios e brancos está ainda, tragicamente, de acordo com a hierarquia das raças. A idéia impregnada ainda é a "eurocentrista" da nossa colonização. Por que em um Brasil de maioria negra, não temos sequer um herói negro? Em uma sociedade onde não há igualdade entre as pessoas, o preconceito velado é uma forma muito eficiente de discriminar pessoas "de cor", desde que elas fiquem no seu lugar e "saibam" qual é ele. Finalmente, temos um "triângulo racial" que impede uma visão histórica e social da nossa formação como sociedade. O fato contundente de nossa história é que somos um país feito por portugueses brancos e aristocráticos, uma sociedade hierarquizada e que foi formada dentro de um quadro rígido de valores discriminatórios.

Assim, baseando-se nos valores discriminatórios impostos desde a colonização do país, é mais fácil dizer que o Brasil foi formado por um triângulo de raças, o que nos conduz ao mito da democracia racial, do que assumir que somos uma sociedade hierarquizada, que opera por meio de gradações e que, por isso mesmo, pode admitir, entre o branco superior e o negro pobre e inferior, uma série de critérios de classificação.

É claro que podemos ter uma democracia racial no Brasil. Mas ela, conforme sabemos, terá que estar fundada, primeiro, numa positividade jurídica que assegure a todos os brasileiros o direito básico de toda a igualdade: o direito de ser igual perante a lei. Na nossa ideologia nacional, temos um mito de três raças formadoras. Não se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que o mito é precisamente isso: uma forma sutil de esconder uma sociedade que ainda não se sabe hierarquizada e dividida entre múltiplas possibilidades de classificação.

DaMatta, persegue a idéia de Sérgio Buarque de Holanda, para quem a mistura de raças era um modo de esconder as injustiças sociais contra o negro, índio e mulato, e a idéia de democracia racial não passava de um mito.

Ainda no "descobrimento" do Brasil, DaMatta indica que a sociedade manifestase por meio de muitos espelhos e vários idiomas. Um dos mais importantes no caso do Brasil é, sem dúvida, o código da comida, em seus desdobramentos morais que acabam ajudando a situar também a mulher e o feminino no seu sentido, talvez, mais tradicional. Comidas e mulheres, assim, exprimem teoricamente a sociedade, tanto quanto a política, a economia, a família, o espaço e o tempo, em suas preocupações e, certamente, em suas contradições.

Sobre Comida e Mulheres DaMatta distingue o que é "cru e cozido". Enquanto o cozido permite a relação e a mistura de coisas do mundo que estavam separadas, o cru é o oposto do mundo da casa, é como uma área cruel e dura do mundo social. Continuando a discernir comida de alimento, é válido dizer que o primeiro (comida), é tudo aquilo que pode ser ingerido para manter uma pessoa viva, algo universal e geral. A comida é tudo aquilo que foi valorizado e escolhido dentre os alimentos.

O antropólogo francês Lévi-Strauss foi quem chamou a atenção para os dois processos naturais – o cru e o cozido –, não somente como dois estados pelos quais passam todos os alimentos, mas como modalidades pelas quais se pode falar de transformações sociais importantíssimas. Num plano mais filosófico e universal, sabemos que cru se liga a um estado de selvageria (estado de natureza), ao passo que o cozido relaciona-se ao universo socialmente elaborado que toda a sociedade humana define como sendo o de sua cultura e ideologia. Mas é básico continuar enfatizando que a comida permite realizar uma importante mediação entre cabeça e barriga, entrecorpo e alma, permitindo operar simultaneamente com uma série de códigos culturais que normalmente estão separados, como o gustativo, o código de odores, o código visual e, ainda, um código digestivo, posto que no Brasil também classificamos os alimentos por sua capacidade de permitir ou não uma digestão fácil e agradável.

Para nós, o cru e o cozido podem significar com muito mais facilidade um universo complexo, uma área do nosso sistema onde podemos nos enxergar como formidáveis e nos levar finalmente, muito a sério. Nesse sentido, o cru seria tudo que está fora da área da casa onde somos vistos e tratados com amor, carinho e consideração, podendo – consequentemente – escolher a comida. Ou seja: o cru é tudo aquilo que está fora do controle da casa. Já o cozido é algo social por definição. Não é somente o nome de um processo físico – o cozimento das coisas pelo fogo –, mas, sobretudo, o nome de um prato sagrado dentro da nossa culinária.

Para nós, brasileiros, nem tudo que alimenta é sempre bom ou socialmente aceitável. Do mesmo modo, nem tudo que é alimento é comida. Em outras palavras, o alimento é como uma grande moldura, mas a comida é o quadro, aquilo que foi valorizado e escolhido dentre os alimentos; aquilo que deve ser visto e saboreado com os olhos e depois com a boca, o nariz, a boa companhia e, finalmente, a barriga.

Para DaMatta a comida define as pessoas: "dize-me o que comes e dir te-ei quem és"! [2]. O fato é que as comidas para o Brasil pequeno se associam à sexualidade, de tal modo que o ato sexual pode ser traduzido como um ato de "comer", abarcar, englobar, ingerir ou circunscrever totalmente aquilo que é (ou foi) comido. A comida, como a mulher desaparece dentro do "comedor" – ou do "comilão". Assim a relação sexual, na concepção brasileira coloca a diferença, e a radical heterogeneidade, para logo em seguida hierarquizá-la no englobamento de um "comedor" e um "comido". E se se é aquilo que se come, cuidado com o quê ou quem for comer.

Ainda na perspectiva do livro, DaMatta procura respostas sobre de que forma o carnaval serve de teatro e prazer para o mundo, afirmando que no caso do Brasil, a maior e mais importante, mais livre e mais criativa, mais irreverente e mais popular de todas as festas é, sem duvida, o carnaval. De fato, todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e mitos, trabalho e festa, corpo e alma, coisas dos homens e assunto dos deuses, períodos ordinários – onde a vida transcorre sem problemas – e as festas, os rituais, as comemorações, os milagres e as ocasiões extraordinárias, onde tudo pode ser iluminado e visto por novo prisma, posição, perspectiva e ângulo. Ou seja, o carnaval cria certas situações onde várias coisas são possíveis e outras tantas devem ser evitadas. Ele é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. É a distribuição teórica do prazer sensual para todos. Trocamos a noite pelo dia, não se fala em máscaras, mas em fantasias, e esta permite passar-se de ninguém a alguém. As pessoas mudam de posição social. É uma ocasião em que a vida diária deixa de ser operativa e, por causa disso, um momento extraordinário é inventado. Numa palavra, trata-se de um momento onde se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. O carnaval é percebido como algo que vem de fora, com uma onda irresistível que nos domina, controla e, melhor ainda, seduz inapelavelmente. É também descobrir que todos são iguais ou podem ser iguais perante o carnaval. O carnaval é basicamente uma inversão do mundo.

As festas permitem descobrir oscilações entre uma visão alegre e uma leitura soturna da vida. Todas as festas recriam e resgatam o tempo, o espaço e as relações sociais. Assim, é na festa que tomamos consciência de coisas gratificantes e dolorosas. Que não podemos comparecer porque não somos da mesma classe social, ou mesmo porque não somos bons dançarinos, etc. No caso brasileiro, todas as solenidades permitem ligar a casa, a rua e o outro mundo. O carnaval liga casa, rua e outro mundo querendo e propondo a abertura de todas as portas e de todas as muralhas e paredes. Os ritos cívicos e religiosos fazem o mesmo, mas com propostas diferentes.

Os rituais religiosos partem de locais sagrados, pretendendo ordenar o mundo de acordo com os valores que são ali articulados como os mais básicos. Nos ritos de ordem em geral, e nos rituais religiosos em particular, o comportamento é marcado pela contrição e pela solenidade que se concretizam nas contenções corporais e verbais. Tudo isso é salientado com precisão em todos os ritos da ordem onde a idéia de sacrificar o corpo pela pátria, por Deus ou por um partido político acaba se exprimindo pela noção de dever, de devoção e de ordem. O que contrasta com os rituais carnavalescos.

Entre a desordem carnavalesca, que permite e estimula o excesso, e a ordem, que requer a continência e a disciplina pela obediência estrita às leis, como é que nós, brasileiros, ficamos? No meio dos dois, a malandragem, o "jeitinho" e o famoso e antipático "sabe com quem está falando?" seriam modos de enfrentar essas contradições e paradoxos de modo tipicamente brasileiro.

O "jeito brasileiro" é um modo pacífico e até mesmo legítimo de resolver tais problemas, provocando essa junção inteiramente casuística de lei com a pessoa que a está utilizando. Jeito esse que se configura no "- você sabe com quem você está falando?". A malandragem faz parte desse jeitinho, é uma onda decinismo e gosto pelo grosseiro e pelo desonesto, o despachante, que só pode ser vista quando nos damos conta da dificuldade de juntar a lei com realidade social diária.

A malandragem assim, não é simplesmente uma singularidade inconseqüente de todos nós, brasileiros. De fato, trata-se mesmo de um modo profundamente original e brasileiro de viver, e às vezes sobreviver, num sistema em que a casa nem sempre fala com a rua e as leis formais da vida pública nada têm a ver com as boas regras da moralidade costumeira que governam a nossa honra, o respeito, e a lealdade que devemos aos amigos, aos parentes e aos compadres. Antes de ser um acidente ou um mero aspecto da vida social brasileira, coisa sem conseqüência, a malandragem é um modo possível de ser. Algo muito sério, contendo suas regras, espaços e paradoxos.

Nós brasileiros, marcamos certos espaços como referências especiais da nossa sociedade. A casa onde moramos, comemos e dormimos; a rua onde trabalhamos e ganhamos a luta pela vida. A cada um desses podemos somar um outro espaço: a igreja e os caminhos para se chegar à Deus.

A religião, segundo DaMatta "... é um modo de ordenar o mundo, facultando nossa compreensão para coisas muito complexas, como a idéia de tempo, a idéia de eterno e a idéia de perda e desaparecimento, esses mistérios parentes da experiência humana..." [3]. Assim, a religião marca e ajuda a fixar momentos importantes na vida de todos nós. Desse modo, nascimentos, batizados, crismas, comunhões, casamentos e funerais são marcados pela presença da religião, que legitima com o aval divino ou sobrenatural uma passagem que se deseja necessária. Nós brasileiros, temos intimidade com certos santos que são nossos protetores e padroeiros, nossos santos patrões, do mesmo modo que temos como guias certos orixás ou espíritos do além, que são nossos protetores.

Enfim, toda essa complexidade existente, por vezes, paradoxalmente, nesse Brasil de tantas caras, demonstra a peculiaridade da construção da identidade brasileira, um Brasil de política falha, e de carnaval o ano inteiro. Um Brasil de casa, da rua, e do trabalho. Um Brasil de tantas cores e de tanto racismo. Um Brasil onde comer pode significar muito mais do que se alimentar... Um Brasil de católicos fervorosos e candomblé latente. Um Brasil de Deus, dos deuses, do mundo. Um Brasil dos brasileiros.


Bibliografia:

DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Editora Rocco.


Alianna Caroline Sousa Cardoso
Acadêmica do curso de Direito na Universidade do Estado
de Mato Grosso (UNEMAT) e Pesquisadora Voluntária
no grupo de Teoria do Direito, Educação Popular e
Economia Solidária vinculado à Universidade.


Notas

[1] DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Editora Rocco, p. 17.

[2] Idem, p. 58.

[3] Idem, p. 113.


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